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  • Jorge Boavista

A Paz

Imaginemos a seguinte situação: estamos caminhando tranquilamente por um parque, quando de repente ocorre um evento desagradável qualquer. Pode ser que tenhamos tropeçado e caído, pode ser que um pombo tenha defecado em nossa cabeça, pode ser que alguém tenha sido mal educado conosco, pode ser que tenhamos sido roubados, etc. A questão fundamental e imediata é como e se reagimos. A reação, se houver, dá vida à relação entre nós e o evento ocorrido. É como se criássemos, a partir daí, uma bolha de existência em que nela coabitam a energia que dispendemos na reação e a relevância conquistada pelo evento em si. Essa bolha resistirá o tempo necessário até que tenhamos considerado que as questões do evento, quaisquer que sejam, tenham sido resolvidas. Ou seja, ao decidirmos pela reação, admitimos uma perturbação energética com duração temporal.


É claro que diante de alguns eventos a reação é vital, sob pena de incorrer em acidentes, danos físicos, etc. O que nos interessa aqui, especificamente, são as reações e consequências de natureza psíquica.


Em geral, quando ocorre um evento que nos desagrada, reagimos de maneira negativa. Essa reação tem na sua origem um pensamento carregado de certo tipo de emoção, um que se nutre do outro. Assim como ocorre na colisão entre corpos (colisão elástica), onde uma quantidade de energia é gerada e transferida em boa parte para o corpo colidido, a reação psíquica a um evento acaba não só perturbando qualquer que seja o nosso estado anterior, mas transfere uma boa quantidade de energia do evento em si para nós mesmos. Ou seja, ao reagirmos não criamos uma barreira de proteção e imunidade psíquica. Ao contrário, damos força ao aspecto negativo que produzimos a partir da energia que absorvemos do evento. E, quanto maior for a nossa energia de reação, tanto maior será o dano psíquico.


Nós todos temos em algum lugar da nossa essência ou estrutura espiritual um centro de paz. Este centro é alcançado a partir do momento em que há prevalência mental sobre os aspectos emocionais na percepção da realidade, ressalvando que o amor é de natureza espiritual, não emocional. Em geral, somos constantemente influenciados pela realidade externa e, pela percepção sensorial, construímos a partir dela um conjunto de conceitos sobre a vida em geral. O caminho percorrido pelo objeto percebido até a formação do pensamento, passa primeiro por nossos sentidos (corpo físico), em seguida absorve uma carga emocional (corpo astral/emocional) para, finalmente, alcançar o plano mental onde racionalizamos/intuímos e produzimos um pensamento (conceito, ideia, opinião, etc.). A combinação das percepções físicas, emocionais e mentais gera o que Daskalos chama de elemental (forma-pensamento). Muitas vezes, já conhecemos a realidade a tal ponto que a sua percepção nos identifica prontamente com este ou aquele elemental que, por memória, já se encontra a ela associado e formatado. E, assim, devolvemos esse elemental (forma-pensamento) à realidade numa constante e incontrolável interação. A maior parte de nossas reações advêm da carga emocional que imprimimos neste percurso de percepção da realidade.


A carga emocional com a qual repetidamente revestimos a realidade percebida acaba por criar couraças que, exponencialmente no decorrer da vida, nos encarcera num mundo psiquicamente impotente. Isso cria uma imensa dificuldade de enxergar e perceber a realidade com autonomia, o que termina por gerar muita perturbação mental, nos afastando cada vez mais do centro de paz.


A cultura, na qual nos formamos e vivemos, tem sido cada vez mais protagonista na formatação e padronização de reações. Um automatismo não natural que é impingido paulatinamente no desenvolvimento humano, forçando-nos a aceitar uma realidade diferente daquela realmente observada. Ou seja, há em curso uma ação global de desencorajamento de uma percepção independente e individualizada.


Não há espírito que viva em paz sem construir seus valores, ideias e recursos psicomentais a partir de uma realidade percebida de maneira autônoma e soberana. Esta construção passa por substituir a percepção reativa por uma ação consciente de atribuir à realidade os aspectos emocionais que decidirmos. Isto é, somos nós quem impõe à realidade a percepção que queremos e não o inverso. Isso inibe a carga de perturbações energéticas abrindo caminho para a paz interior, para conexão com o nosso centro de paz.


A prática de meditação, com aguçada concentração interior da alma, acabar por isolar-nos da ação das impressões exteriores. A antroposofia explica que quando exercitamos essa prática, isolamos de nós mesmos o nosso corpo emocional, trazendo à superfície o eu verdadeiro, genuíno. É como se afastássemos temporariamente o sistema nervoso (representação física do corpo emocional) do sistema sanguíneo (representação física do eu). Diz Steiner: “... o sistema nervoso, que antes inscrevia suas impressões no quadro sanguíneo, deixa-as refluir sobre si mesmo, detendo-as e não as deixando chegar até o sangue.” Ou seja, a meditação nos leva a uma clara separação de planos, fazendo emergir gradativamente o eu essencial e amortecendo as influências psíquicas. Abrimos aí uma porta para o mundo superior. Começamos a construir a ponte onde nossa alma toca o espírito, onde habitam a intuição e a inspiração e, finalmente, onde nos conectamos com o nosso centro de paz.

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